Viagens ao Inconsciente


06/03/2010


O decote dos seus lábios

Gosto dos seus pés, unhas, cabelos, umbigo, mas o decote dos seus lábios...

Rodopio em volta dos seus olhos, desço pelo nariz, penduro num pêlo, entro nos póros, nos buracos, nas vertigens. Me deixo levar em seu sangue. Pulso. Penetro nas janelas da sua visão, nos seus sonhos não. E nem me pergunte por que.

Ela esta séria. Lia um romance, sentada na varanda da sua casa de roça. Os olhos em ziguezague não captavam a beleza das rosas que se exibiam, nem o sol que entornava laranjas na pele da lagoa. Maria estava absorta. Neste momento come a fala do amado que dizia no livro: Queria ter a coragem de expressar o que senti ao te ver, e não tome isto como um elogio pois veio dos lugares mais indecentes de meu ser. Poz-se a despir-se com tal lepidez que Maria rubrou, pegou do leque e se abanou. Calma caro leitor, nosso amado despia palavras com que tentava seduzir Maria; ainda um tanto inocente, sem saber como podia estar sendo a personagem da história no momento mesmo em que lia. Resvala nas palavras um pouco do desejo de quem se permite. Foi como se ele tivesse sussurado ao seu ouvido. Bandida! Maria olhou pra trás subitamente. Não havia ninguém. Era voz de marido. Um superego fantasma que tinha que estar por ali, nas folhagens imaginárias onde ela se perdia em seus devaneios amorosos. Mas, encucou com o jeito meio grosseiro da intervenção: bandida?! Menos né! Preenche um pouco a minha solidão, não esta que vem como queixa, mas uma que faz bem, pois que se abre como uma boca no beijo. Maria balançando-se na cadeira enquanto toma fôlego para prosseguir a leitura. Desenhar como um deus namorando o exato momento em que o seu sorriso vira um olho feliz. A garganta  colou. Maria começou a tossir. Engasgada, correu à bilha d'água fresca e bebeu uma caneca inteira. Parou meio atônita. Descansou a caneca sobre o banco velho de madeira e cismou, enquanto seu olho parado numa forma aberta pelo descascado do esmalte branco da caneca. Dizer que era a forma de um coração poderia parecer simplório, mas ao ouvir as letras do seu amado dizendo: ou quem sabe supor que o seu coração produzisse uma onda a mais no pulsar só porque é assim que os corpos falam. Se eu quisera roubar-te deste seu conforto doméstico e convidar pra um passeio nas estrelas que se jogaram na areia da praia que se formou na cabeceira do rio? Maria sentiu a chegada da noite com uma leve brisa soprando em seus braços. Também algumas pétalas caíram da planta, sugerindo uma noite romântica. Maria não se importou muito. Passou mais uma página. Passou mais um tempo embuida na sua restia. Pé-de-moleque, pão-de-queijo, amora...

Escrito por nelson barroso às 10h07
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04/03/2010


um dia surreal!!!!!

Tudo começou após eu ler um conto de Drummond denominado "O Gerente". "Era um homem que comia dedos de senhoras;..." Um conto iniciado assim, não tive como não comê-lo até o fim. Drummond com certeza tinha dedos de senhora. Levei para o dia seguinte o imaginário que contextualizava o conto, pois, dormi de roupa e tudo. A caminho do trabalho, vi no acostamento da estrada um ser negro, quatro patas, sem rabo, com a cabeça do grande otelo. Não liguei. Hoje em dia vemos de tudo. Estava na metade de um relatório quando fui avisado que eu não mais trabalharia naquele setor, e que deveria me encaminhar ao meu superior para maiores esclarecimentos. Ninguém sabia ao certo o motivo da minha transferência. Uma advogada muito simpática foi minha intercessora na minha demanda. Eu só queria exercer a função para qual foi concursado. Saindo dali me vi numa charrete puxada a burro. Chovia. Muitos buracos cheios d'água no caminho. Um cachorro ensopado caminhada na calçada. Algazarra de crianças. Casas em ruínas. Posto de saúde vazio. Ninguém pode entender o que é um serviço público. Dois quibes com cocacola. Mais chuva. Um dia encontrarei um amor na internet. Na volta fui espremido por um homem muito gordo que sentou-se ao meu lado na pequena cadeira no ônibus. Eu só consegui mover os dedos quando queria mudar a estação do rádio no celular que estava na minha mão. Dormi logo após o noticiário que dizia que havia vários navios encalhados no gelo nos Balcãs. Em meu pensamento fica insistindo que amanhã será outro dia.

Escrito por nelson barroso às 19h46
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02/03/2010


águas em comum (inspirado em Neruda - "Me encante")

Neruda me irrita com sua verdade sobre o amor

Eu irrito o amor com minhas verdades

Quero ver, sentir, cheirar, tocar

Se for pra ser tem que existir

Forço a ponta do grafite e faço a sombra

O amor é sol

Quando chove

Quando esfria

Quando pede lenha

Lareira

E queima os excessos

Os belos lirismos

Coisas muito corporais

Acho que até vale algum cálculo

Pra deixá-lo bem voraz

Sonho de perenidade

Algum subterfúgio, alguma dúvida, algum cinema

Com certeza sem perder a ternura

Cometeremos Neruda

 

Escrito por nelson barroso às 19h40
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