Viagens ao Inconsciente


31/01/2010


A Festa

Ela é morena, magra, rosto sério. Usava um vestido que deixava seus seios delineados, com uma pontinha do soutien preto discretamente à mostra. A casa ainda estava vazia, talvez por isso parecia distraída sentada no banco alto do caixa com as pernas apoiadas de tal forma que pude pensar ter visto, no fundo escuro que seu vestido rodeava, uma intensão sedutora. Quando voltei os olhos para o seu rosto vislumbrei uma beleza tamanha, algo que dispensa qualquer tradução ao lançar-me em uníssono na certeza de que aquela forma merece gozar todo o prazer que um corpo de mulher suporta.

Com audácia meus olhos percorreram seus ombros, colo, boca, enquanto ela descia do banco para digitar o código do cartão de crédito. Foi confuso imaginar que ela estaria ali, trabalhando, enquanto todos se divertiam na festa. Voltei ao caixa acompanhado de um amigo com quem comentei a visão. No entanto, ela nos atendeu seca, quase áspera, como se estivesse irritada pelo trabalho. Horas mais tarde eu fui sozinho ao caixa. Fiz um pedido. Sem me olhar nos olhos, atendeu gentilmente. Ao devolver-me a ficha com o cartão me deu um sorriso como retribuição pelo fato de eu ter-lhe dito, discretamente sorrindo, olhando em seus olhos, obrigado.

 

Escrito por nelson barroso às 16h22
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Foi um susto a princípio quando vi seu rosto estampado na tela do meu olhar. Você parecia comigo. Sublime por que...não é o outro que desejo? Estranho minhas marcas no espelho, mas em você sou belo? quase dez segundos e meio...esse foi o tempo em que segurou o meu olhar no seu. Os olhares são autônomos...roubam de nós o desejo. O meu desejo metido que é no seu olhar...me rouba. Rouba-me do risco que estranho. Desejo mas não arrisco. Não há risco. Preciso do risco da vida. Você me abraça apertado mas não me beija. Por que não me beija? Por que não deixa? Por que não me deixa? Pra onde foi seu desejo?

Espera pelo meu?

Eu quero você?

Aonde está?

Por que faz assim?

Me olha, sorri e vai embora?

O que eu fiz?

Qual a palavra pra te trazer?

Diz

Olha

Vem

Beija

Rima

Faz

Rima

Eu preciso acreditar que acredito

Me liga

Me liga

Eu roubo

Desejo você

Me beija

Vem

Afogo, afogo, afogo

Há fogo aqui

Tudo queima

Arde

Vem

Afogo

Traz você de novo pra mim

Deixa a outra

Vem você

Não espero

Ardo

Afogado

Rima em mim

Vem

Sorri

Eu sou assim

Eu mudo

Falo

Escrito por nelson barroso às 16h04
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As vezes o amor acaba numa frase.

Por causa de uma frase.

Cabe numa frase: a vida inteira.

Todos estavam eufóricos naquela noite. A música tocava alta. Algumas falas aborrecidas no meio da felicidade: alguém viu a porra do meu perfume? Quem pegou o meu anel aqui na minha gaveta? E logo saía cantarolando...

Todo circo armado para se ver o que a vida produz de diferente. Ou se quer mesmo, o mesmo de sempre! Sei que um pequeno detalhe, um recorte em meio ao burburinho da festa, é o que fica marcado. Não pergunte até quando. Se você não ganhou o cara. Se você adiou novamente pra próxima festa, e a outra, e a  outra. Era apenas um detalhe no sorriso. Você tinha coisa pra ver, pra falar... Mas ele te olhou de um jeito - aquele jeito, sei lá, o seu coração disparou. Mas ele não veio hoje. Carregou seu corpo pra onde? Aonde será sepultada a esperança de novamente ver o detalhe? Na próxima festa. No próximo afair. No próximo papo que você vai ter com ele daqui há mais de um mês. Pegou o telefone? Espera. É só um detalhe, um perfume, uma música... Como vai ser na hora de eu tirar a roupa se já estou assim tão nua? Parecerei vulgar. Toca o telefone. Dispara o coração.

Escrito por nelson barroso às 12h20
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Samba!

Sabe, de mim eu posso dizer que meu exgero leva-me a ver a boçalidade da vida que faz funcionar o sistema. Estamos nele sem querer estar. Ele é rápido,, brilhante, funcional, e nos obedece. Você olha e o movimento acontece. O globo ocular. Mas queremos mais. Não sabemos como. Queremos segurança e vertigem. Estão aprimorando programas que nos levarão ao fim do tédio - teremos saudades disso. Pende mais para o prazer do que para o nada. Mas mesmo o prazer já não é o mesmo agora, agora, Clarice - claríssima! Obscuro objeto de desejo onde caçamos como sede palavras que não se reconhecem como tais de tanto que coisou. O mais simples esquecimento carrega a coisa. Charfundo escafandro uma letra que não entendo em si, mas que me timbra, Clarice. Agudamos, agudamos, charjundemos, trepemos, trepamos, e não aprendemos nada do homem. Erraremos na mão cheia de palavras que não se calam. Cala a boca Macabeia! Isso é pra ler em silêncio. Fala no bar onde todos gritam felizes; perderam a alegria por um instante - hoje tem samba de roda, você vai ganhar muito dinheiro vendendo água - samba crioula! aqui é a Bahia. Aquele moço é doutor, defendeu sua tese na academia, gata. Deixa de coisa, canta caetano pedro luiz e a parede, e a parede, e a parede, repete que dá mais lucro - não tem saída, samba! Bate o tambor, estaca, estacato, chique breque no meu bandolim, no meu cavaquinho é assim, sonha! alegria, alegria, acabou o tédio, agora tem comidinha, comidinha minha foda gostosa, amor de carnaval.

Quando eu crescer quero ter pau, ser cachorro pra caralho só de sacanagem, mas, hoje fica assim, vai vendo quanto custa, paga a prestação, você tem um emprego, irmão. Samba!

Escrito por nelson barroso às 12h07
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