Viagens ao Inconsciente


22/12/2009


eu?

De ressaca, acordei e não consegui tirar o lençol que estava enroscado em meu pescoço. A língua grudada no céu da boca, e na cabeça um bate-estaca. Com muita luta achei a ponta do lençol que escapou da minha mão na primeira tentativa de puxá-lo. De repente cochilo. Sonho que estou lutando com Godzila e sua capa estava enroscada em meu pescoço. Sufocado, desfecho socos em toda direção. Imagino o mico que será se por acaso acabar debaixo dos pés de meu adversário - que ri de minha lida. Quando a minha cabeça esta prestes a ser engolida por aquela bocamais sem tamanho, desperto novamente. Apalpo o lençol ainda enroscado no meu pescoço e agora consigo ir soltando, não sem dificuldades. A cozinha vem até mim, depois de ter tropeçado no fio da tv estendido pela sala, aliás, uma tv scharp 14''. Não cheguei a derrubá-la, mas, serviu para dar uma acordadinha na minha alma. Peguei uma garrafa d'água, pet, onde antes havia xarope de guaraná - uma garrafa transparente, lisa. Num gole bebi a metade junto com um comprimido de engove. O estômago estava embrulhado com papel de saco de carvão. Completamente nú, fui até a janela que estava entreaberta e a fechei. Já no banheiro, olhei por um instante no único espelho da casa, pendulando na parede, acima da pia, e vi um sujeito que me olhava quase sem querer, com uma cara amarrotada e olhos muito tristes. Entrei no box, abri o choveiro no morno, deixei a água cair na minha cabeça e fiquei olhando as trilhas que iam se compondo em direção ao ralo. Sua cabeça estava vazia e aquelas trilhas d'água foram as primeiras marcas que então sua visão levara até ao lugar onde os pensamentos nascem. Olhei a sujeira acumulada nos cantos: restos de sabonete, pêlos, lodo, encardidos. Lembrei das pessoas que sofrem na brancura, e sinti um gosto arejado, uma vontade de limão arrancado com as mãos. Lavou seu sexo com sabão preto que cheira bom. Quis ser limpo. Mas, assim como veio, esta ideia, e uma parte de mim, escorreu junto com a espuma branca e perfumada ralo a baixo.

A trilha das ideias já estava um pouco mais enredada. O olho triste do sujeito no espelho, a água em movimento abrindo veios, a sujeira acumulada nos cantos, a espuma branca e perfumada, a limpeza, o sexo. Por que eu estava assim tão reflexivo? Hoje, a química se mistura às sensibilidades. Não há muito como querer encontrar alguma magia, enigma, pergunta, nas paragens tão etupidas de sinais que já trazem o sentido chapado numa fórmula química - o quê ainda não foi reduzido a este império? Talvez o sonho...

Escrito por nelson barroso às 13h40
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