Viagens ao Inconsciente


16/10/2009


SOBROU QUEIJO!

Eu não sei por quantas vezes aquela situação já tinha ocorrido. Não sei ao certo se me permitiria novamente estar ali. Eu não podia produzir em mim o desejo, nem conseguia me livrar dele quando ele me assaltava.

Seus olhos em mim, tinha boca, pernas, seios e sexo. Mas eles não se cansavam. Nada que vinha da sua boca podia fazer diminuir a intensidade daquele rio. E eu me entregava a isso, cada vez com menos pressa de ir embora. Era como um aprediz de voyer. Pensei que talvez eu me transformasse numa mulher. Evitei fazer conclusões apressadas e totalizantes. Meu estranhamento andava a um nível quase imperscrutável. Era quase mudo o meu outro. E seus olhos de ensurdecer não paravam de me beber. O que agora posso estranhar era que eu ficava saciado. A palavra silêncio calava-me, como se qualquer coisa fosse quebrar a ponte frágil, mas intensa.

O garçon abriu a segunda garrafa de vinho tinto. Deu a ela um tanto para degustar. Aprovado. Muito bom. O garçon desenhou um sorriso e nos serviu. Depois os queijos. Eu me sentia sóbrio, apenas ainda um tanto embevecido pela sua jovialidade; aos quarenta anos ela podia gabar-se de ter uns vinte e poucos. Eu, adolescente, mergulhado. Chovia há três dias, e aquela tarde parecia noite. O restaurante está vazio, mas alguns casais começam a entrar. Todos subiam para o anfiteatro. Vieram jantar. Uma música boa cheirava no ar. Foi quando ela me deu a notícia: Você é minha alma, idêntica. Rindo confusamente pois sabia que havia algo que não me cheirava bem, disse, meio bobo: Eh mesmo?! Sim, por isso que não há sexo. Não podemos transar. Somos o mesmo. Identidade. Não há nenhuma falta. Provavelmente devido ao álcool contido no vinho, ela não percebera minha decpção. E eu até pensei que não a estivesse expondo. Nada mais falei que fosse útil: talvez pudéssemos tentar algumas técnicas; era sério, mas rimos muito. Ela passou a falar do sujeito por quem tem tesão, mas, não está apaixonada. Ele não a sustenta. Ela diz sentir desejo de ter um homem que lhe dê suporte, pois, se sabe um espírito um tanto desfiliado. Mas, ele, também é insuportável. Percebi que sobraria queijo.

Mesmo assim aceitaria novamente o seu convite. Um dia decantaria todo o meu torpor. Enquanto recebesse em meu corpo toda sutileza das suas palavras e o toque da sua mão me fosse sexo, certamente não lhe negaria a companhia. O fosso que me engulia ao deixá-la substituia a falta de importância que a minha vida tinha. Eu não era muito afeito a admirar o sublime. A infinitude me era quase indiferente. O que me consumia era a perda. Era estar sem o toque do seu olhar.

Escrito por nelson barroso às 13h46
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