Viagens ao Inconsciente


10/07/2009


RETRATOS DA VIDA NUA

um homem se lava agachado junto a uma poça d'água na rua calçada, jogando com a mão as porções em seu coxi, enquanto com a outra segura firme uma sacola que parecia conter coisas que catou no lixo.

ao longe avisto duas crianças brincando na pequena calçada diante do portão do depósito que fica embaixo do viaduto - é uma via expressa - uma criança tem em torno de dois anos e a outra quatro. Os ônibus seguem velozes em fila deixando à margem esta cena.

um camelô rippe em pé aguarda não sei o quê encostado ao alambrado do passeio público. seus filhos cobrem o chão com folhas de jornal novo - espalham a notícia de que vão dormir por ali mesmo - estavam bem vestidos e limpos.

uma senhora lê sua bíblia acocorada na calçada de uma rua no centro do rio de janeiro enquanto um homem mija em pé na parede há vinte metros dela - ela vende algumas coisinhas num tabuleiro: pente, rotróz, lixa de unha, pilha, veda rosca, tampão para tanque. Ela tem troco para dez reais.

a carne estava exposta com sua cor vermelha. Havia tiras de gordura branca sob a péle crespa onde se via os pêlos duros mal queimados. algum sangue ainda pingava manchando o chão. tudo estava suspenso preso por um gancho de ferro. um homem afiava um punhal deslisando suavemente seu fio de corte num amolador de mão.


Escrito por nelson barroso às 14h55
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07/07/2009


 

Naquele couro curtido da película do meu pensamento havia desenhos que não se podiam perceber imediatamente os significados. Eram sombreadas manchas nodulentas, como castelos carcomidos pelo tempo e histórias. Ruínas de montes escarpados pelo vento. Rastros e alguns bichos ainda não catalogados pelos persistentes entomologistas. Ruas nuas de barro batido por pés descalços, cuja friagem teria sido trocada pelo suor amassado e pesado dos passantes que por ali percorreram léguas e mais léguas buscando algo para os que ferviam na febre de existir. E construíam cidades imaginárias enquanto a sede era ludibriada por cantos ininterruptos, lamentos, e respiração. Em meio ao rebuscado de falas incompreensíveis sussurrava em seu pensamento idéias como coisas que se acumulam nos quartinhos abandonados das casas. Galope de cavalos, sons de asas, uivo, um rio que repete sua música infinita. Uma enorme boca alaranjada era o céu naquela tarde. Peguei algumas pedras, coloquei nos bolsos. Um grilo me crica alguma coisa. Não entendi. Olhei minhas mãos. As unhas. As dobras. Detive o olhar por uns instantes numa veia que pulsava. Eu via o tempo. Esse tal que passa sem pedir licença, sem cumprimentar, deixando apenas a fumaça de seu cachimbo perfumado a nos fazer indagar sobre o quanto mais dele teremos, e em qual qualidade Uma vertigem utilitarista arrepiou-me causando um breve delírio de achar que eu deveria aproveitar mais de sua benevolência. Construir algo que talvez fique como uma marca de autoridade nas paredes deste devir. Um sinal de que eu existi por aqui. Habitei este planeta. Usufrui das coisas que encontrei e que produzi. Mas o que eu poderia fazer? Tudo parecia tão evanescente. Núbia. Lívida. De tão frágil fulgor. Um reluzir na neblina. Enchi de ar meus pulmões e ensaiei um grito. A música grave das minhas cordas vocais remeteu minha mente para um espaço inimaginável de prazer. Subitamente começo a cantar uma ópera como um aedo. O som propagava em todos os sentidos fazendo com que um brilho a mais assentasse por sobre a pele dos objetos que figuravam ao meu redor. Maravilhado, supus entender, quando o portal abriu para a passagem de um cometa. Estamos numa história fantástica de saber que na vida é possível criar com um simples gesto do desejo os mais espantosos contos.

 

Escrito por nelson barroso às 22h15
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