Viagens ao Inconsciente


27/06/2009


Era sempre a mesma confusão com as palavras. Ela tinha ficado com ele apenas uma vez. Querendo mais, ela foi embora. Aquilo cheirava paixão. Ela teve medo. Por mais tranqüilo e musical que ele fosse, ela o deixou no meio daquele feriado. Ainda tonto de amor ele se conformou. Nutria uma esperança de que talvez houvesse uma regularidade nas visitas que ela o faria. Decorrido mais de um ano, ela voltou. Mas preciso contar como foi a vida durante este longo período. O que é uma história de amor? Essa pergunta parece imiscuir-se em outra: O que quer a mulher? Longos debates foram travados na tentativa de dar sentido a esta pergunta. Teses foram escritas. Instituições foram constituídas. Filmes foram produzidos. Pessoas enlouqueceram. Algumas brigaram chegando “as vias de fato” de se agredirem fisicamente. Lavrou-se boletim de ocorrência. Insônia. Bebedeiras. Uso de drogas. Tentativa de assassinato. Alguém escreveu seis volumes. Outro falou durante vinte anos sobre o tema. Antropólogos saíram às ruas procurando entre as opiniões alguma estrutura que pudesse revelar o sentido. Linguistas se perderam em análises dos jogos das falas produzidas por todos os atores sociais, e nada. Até matemáticos foram chamados para construírem modelos lógicos que pudessem capturar alguma ordem nesse caótico universo que tanto produzia angústia. Músicos. Poetas. Repentistas. Até Naná Vasconcelos foi entrevistado numa das últimas batidas dos corações aflitos. Nada. A coisa sempre retornava em falta – manque, para os franceses. Havia um filósofo especialista em “não-ser”; não convidado. Chegou perto. Nada. A coisa insistia. Teimava. Ardia. Fizeram excursões pela natureza. Jalapão. Floresta Amazônica. Deserto do Saara. Lençóis Maranhenses. Fernando de Noronha. Triângulo das Bermudas. Himalaia. Plutão. Nada. O macrocosmo não sabe nada sobre a mulher! Um sujeito se auto mutilou na esperança de que assim lhe fosse revelado algo sobre a tão protegida castração. Virou um homem sem pênis. Nada mais. Recorreram à genialidade de Mario Quintana. Fuçaram tudo que ele ironicamente escreveu. Só piadas. A falta permanecia incólume. Inabalada. Estudaram a mente dos traficantes, um desespero atroz, já enfrentando problemas políticos e, principalmente, éticos. Chamaram até os frenologistas, os juristas, os juízes. Nada. Talvez ela esteja sendo produzida historicamente! Alguém que parecia ter o juízo no lugar indagou: Recorram a Foucault! Que decepção! Só encontraram hipóteses das condições de possibilidades da emergência da falta no contexto historicamente determinado. Nem a data provável souberam dizer. Pirro! Quem sabe?! Aquele que foi deixado meio de lado pelos catalogadores de filósofos. Aquele só fazia esta “em suspensão” para daí sempre produzir questões sem nunca tomam partido. Nada! Nada que possa fazer parar o fluxo do desejo de saber quem é “esta”: Não seria um extra-terrestre que habitara as distâncias mais longínquas do espaço sideral? Os lugares que estão para além dos nossos sistemas telescópicos, e até teóricos, de medição do universo. Não seria ela a própria encarnação do χαος? A forma de um ente jogado a Terra numa briga de Titãs ocorrida no mundo mitológico? O broto de uma samambaia transfigurado em mulher? O demônio mesmo em pessoa! O tempo vai passar descartando seus instantes. Até quando vamos ter fome de saber o que deseja a mulher? Nietzsche morreu e Deus continua comandando a massa. Ter o falo? Ser o falo? Há escolha? Vivemos no império do significante, mas qual é o sentido do feminino? Uma partícula subatômica? Sabemos que ela já fora objeto de troca entre diversos grupos de povos primitivos. Lenine agrupou várias delas numa música para tentar extrair a essência achando que a sua mulher são todas mulheres. Chico Buarque decantou sua alma cantando-a de todas as maneiras, em toda sua letra e música. Mas quase é a letra feminina? A primeira? A letra do objeto perdido – pequeno “a”. Ou o A do grande Outro? Dizem também que pode ser o φ – significante da falta.

Escrito por nelson barroso às 20h28
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Meu perfil
BRASIL, Sudeste, NITEROI, Homem

Histórico