Viagens ao Inconsciente


13/06/2009


 

PATO REGURGITANDO SAPO NO DIA DOS NAMORADOS

 

Michel é hábil com as palavras. Velocidade e memória. Criatividade. Transforma clichês em arte. Sadomasoquismo em dinheiro.

Foi avisado que qualquer ruído seria captado por microfones e transformados em descargas elétricas no corpo do artista através de cabos. A cena é medieval. Um sujeito todo de preto, vestindo um roupão largo cheio de bolsos, ligado por cabos elétricos ao tal sistema. Assim que ele adentra ao palco, alguém, tossindo, provoca já o primeiro choque, fazendo com que o artista reaja num movimento súbito. E o bizarro show inicia.

Estamos no século XXI, época em que os pensadores recorrem a Aristóteles para tentar extrair dele algum sentido para o resto que ficou do pós-modernismo. Em cinco minutos de espetáculo Michel já havia pronunciado mais de 800 palavras e levado mais de 250 choques. Como sempre há aqueles mais exaltados, uma mulher que ria de tudo produziu sozinha mais de 100 choques nestes primeiros cinco minutos. Eu fiquei pensando sobre quem estaria sendo sádico realmente. Pois, veja bem, tudo poderia ser um truque muito bem montado: aquela platéia recebendo o regurgitado de um mastigado texto, misto de prosa e poesia, na velocidade de uma narração de futebol feita em rádio. E receberam de tudo pela boca de Michel. Parecia que bebiam seu vômito e ainda achavam graça de piadas preconceituosas, homofóbicas, instigadoras de violência, e o pior, falas manjadas – é como ele dissesse: vai ter sempre um otário que vai rir, um otário que pagou pra engolir vômito. Mas é tudo teatro! Disse Michel num determinado momento da peça, em que propôs a platéia que alguém experimentasse o choque. Ora, o choque elétrico é claro,  mas o choque de se saber masoquista se achando sádico ninguém parece ter sido capaz, nem eu que estou escrevendo isso aqui.

Era dia dos namorados. Eu poderia estar num motel, em casa, num bom restaurante, em qualquer outro lugar que pudesse me fazer sentir um pouco mais aristotélico, menos medieval, mas, aceitei o convite para ir ao teatro encenar na platéia minha própria sapo/pato/logia.

 

Escrito por nelson barroso às 07h57
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07/06/2009


Ser beijado com desejo é o que todo sapo quer. Mas o que aconteceu com as princesas? Elas agora só querem saber de manicures, rpgs, cinemas, curso de espanhol, teatros, livros, feiras de modas, praias....praias meus caros...já viram algum sapo na praia? Estamos acotovelados nos multiplicando nas lagoas, pântanos, brejos, mas elas não se preocupam com o desequilíbrio ambiental, camada de ozônio, efeito estufa. Já me sinto meio estufado, além do que naturalmente sou...só falta nascerem espinhos e viro um baiacu. Enquanto moramos aqui na Barra do Curuzu, elas se mudaram para Barra da Tijuca e Recreio. Nosso cinema é ficar vendo os carros passando na estrada que fica logo ali em frente ao nosso Villar Aglomeradus Sapal, pelos menos também é em 3D, como nos multiplexes em que elas assistem seus filmes cults; isto quando saem de seus castelos, pois, nestes, elas se deslumbram em suas próprias telas liquid crystal display de tamanho 68, ou mais, ligadas ao sistema TV a cabo, ou a internet. Será que elas não têm sentimento? A que ponto chegamos: as princesas saíram de Hollywood e estão invadindo as salas onde Tarkovisky, Antonioni, Kurosawa, Bergman, Fellini, Wim Wenders, Lynch, Polanski, Glauber, fazem seus festins existenciais, dando e tirando sentido na vida. Mas um sapo só vê sentido no beijo da princesa. Eles nasceram com um pequeno defeito de fabricação que os torna muito vulneráveis. É uma coloração que eles adquirem quando estão excitados. As princesas não entendem muito bem como isto funcionam. Elas sabem alguma coisa, mas de alguma forma ficam confusas no lidar com a situação. Elas desejam ser amadas. Como se lhes faltasse alguma coisa, saem caçando sapos. Metem suas botas na lama, percorrem kilômetros de estradas imaginárias, e às vezes literais, em busca da tal completude amorosa, mas, quanta decepção, os sapos sempre exibindo aquela cor. Elas passaram a se reunir para discutir a situação. Foi o princípio do caos. Milhares e milhares delas são vistas nas noites, nos bares, nos restaurantes, nas praias, em todo lugar. Começaram a se aglomerar, como fazemos nós nos pântanos, só que havia alguma diferença. De quê tanto riam, falavam, gesticulavam? Não  parecia ser pelos mesmo motivos....

 

Escrito por nelson barroso às 08h28
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As flores e os botões

Ela tinha uma beleza contida nos cabelos quase sempre presos em rabo de cavalo. Atrás das lentes de seus óculos, arquitetava planos diabólicos para se divertir com o sofrimentos dos homens. Tinha uma preferência pelos mais maduros. Respeitava os idosos. Por estes expressava sinceros afagos. Os mais novinhos não eram afeitos aos seus esquemas, pois ela presava por um ritmo mais lento que nem todos conseguiam acompanhar. Devotadamente pendurada no pescoço, a imagem de sua Santa preferida estava sempre olhando cúmplice todas as ações que ela promovia. Sua estatura facilitava a entrada pelos recônditos caminhos iluminados mansamente por um quarto de lua, que parecia estar sempre vagando no alto de sua cabeça. Nos cumprimentos, nunca dava a orelha pra beijar, mas, sim, a boca, já armada num bico de lábios, muitas vezes assustando os mancebos que tinham que desviar rapidamente o rosto para não resvalar seus lábios no dela - mas acabava sempre causando no outro o sentimento de lhe ter beijado ousadamente. Era já uma espécie de isca. Algo com uma carga ilusionista muito grande. Não havia um homem que não se sentisse persuadido de que estava sendo seduzido de alguma forma. Mas a instantaneidade de sua ação, somada ao contexto formal de sua indumentária, fazia adiar qualquer manifestação que neles significasse uma resposta ao seu afeto. Suas cebeças giravam na tentativa de entender o que estava acontecendo. Se é que realmente estava acontecendo. E sempre estava acontecendo, mas eles não sabiam o quê. Mantinham sua postura simpática enquanto discursavam sobre qualquer assunto. Ela, sempre atrás das lentes, sorriso simples, conduzia inequívoca sua presa. Estudava seus movimentos. Suas palavras. Sua respiração em cada manifestação, em cada assunto, em cada instigação que delicadamente ela promovia. Ela conseguia perceber até o pulsar, olhando discretamente o movimento batente da artéria no pescoço daqueles mais sanguíneos. Certa vez, encontrou um homem que aparentava ter trinta e seis anos. Ela não gostava de cálculos exatos. Supos ser uma vítima interessante. Para o leitor mais exigente talvez o termo não seja o melhor para contextualizar o que realmente causou nela a visão daquele homem; mas outra palavra não me acontece para que eu possa vos brindar com a potência e enigma daquela impressão. Sinto vos deixar por ora um tanto de fora da festa que os olhos dela promoveram nesse encontro. Mas posso dizer que desta vez ela chegou a tremer. A abordagem foi simples: rolava uma festa junina. O homem estava numa fila para comprar um ticket de cachorro quente. Um copo descartável de calcinha de nylon ocupava a sua mão. Deliberadamente ela fura a fila na sua frente. Havia um espaço. Ele olha pra trás. As pessoas estavam distraídamente conversando; não viram. Ele vacila. Enfim lhe toca o ombro. Quando ela se volta para ele sua imagem está refletida no espelho dos seus óculos. Ele a toma como uma surpresa e emudece por uns instantes. Ela ajeita o prendedor nos cabelos. Calado, ele tenta enxergar seus olhos mas o sorriso dela rouba a cena. Pois não? Você furou a fila... Eu sei! Fala balançando a cabeça. Então? O que vai comer? Cachorro quente. Você aceita uma bebida? O que é? Calcinha de nylon. Ah..eu não uso... Nesse instante ele engasga, mandando uma chuvarada da bebida que estava na sua boca, borrando toda a frente da blusa dela. Subtamente lançou sua mão em seus seios no intuito de limpar a sujeira que causara. Meu Deus! Me perdoe...que desastrado sou! Ela lhe segura delicadamente pelos pulsos afastando o seu colo daquelas mãos atrevidas. Tudo bem... Ele dá seu copo pra ela segurar enquanto sai em busca de guardanapos. Sua blusa branca estava com uma nova estampa rosada parecendo flores que acabaram de se abrir deixando transparecer dois botões vermelhos sobressaltados.

Escrito por nelson barroso às 07h55
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