PATO REGURGITANDO SAPO NO DIA DOS NAMORADOS
Michel é hábil com as palavras. Velocidade e memória. Criatividade. Transforma clichês em arte. Sadomasoquismo em dinheiro.
Foi avisado que qualquer ruído seria captado por microfones e transformados em descargas elétricas no corpo do artista através de cabos. A cena é medieval. Um sujeito todo de preto, vestindo um roupão largo cheio de bolsos, ligado por cabos elétricos ao tal sistema. Assim que ele adentra ao palco, alguém, tossindo, provoca já o primeiro choque, fazendo com que o artista reaja num movimento súbito. E o bizarro show inicia.
Estamos no século XXI, época em que os pensadores recorrem a Aristóteles para tentar extrair dele algum sentido para o resto que ficou do pós-modernismo. Em cinco minutos de espetáculo Michel já havia pronunciado mais de 800 palavras e levado mais de 250 choques. Como sempre há aqueles mais exaltados, uma mulher que ria de tudo produziu sozinha mais de 100 choques nestes primeiros cinco minutos. Eu fiquei pensando sobre quem estaria sendo sádico realmente. Pois, veja bem, tudo poderia ser um truque muito bem montado: aquela platéia recebendo o regurgitado de um mastigado texto, misto de prosa e poesia, na velocidade de uma narração de futebol feita em rádio. E receberam de tudo pela boca de Michel. Parecia que bebiam seu vômito e ainda achavam graça de piadas preconceituosas, homofóbicas, instigadoras de violência, e o pior, falas manjadas – é como ele dissesse: vai ter sempre um otário que vai rir, um otário que pagou pra engolir vômito. Mas é tudo teatro! Disse Michel num determinado momento da peça, em que propôs a platéia que alguém experimentasse o choque. Ora, o choque elétrico é claro, mas o choque de se saber masoquista se achando sádico ninguém parece ter sido capaz, nem eu que estou escrevendo isso aqui.
Era dia dos namorados. Eu poderia estar num motel, em casa, num bom restaurante, em qualquer outro lugar que pudesse me fazer sentir um pouco mais aristotélico, menos medieval, mas, aceitei o convite para ir ao teatro encenar na platéia minha própria sapo/pato/logia.









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