todos os dias o dia explode ao clarear. mesmo que não tenha sol, Aristides se põe de pé e sem espreguiçar caminha até a bica e lava o rosto na congelada água que vem direto da serra - ainda chega com algum cheiro de mato e nos olhos fechados é uma sensação muito prazeirosa. o linho branco enxuga mas não aquece, sempre pensa, Aristides, reiteradamente, todas as manhãs. acende o fogão à lenha com o isqueiro de cobre em formato de bala de fuzil, usando umas palhas secas de milho que fica num embornal, dependurado por um prego de cerca na parede sem reboco. ali perto se vê umas marcas feitas com carvão medindo o tamanho da traíra que ele pegou há um ano. sopra o charduço aceso até que o fogo inicie a queimação da lenha. fica imaginando o milagre do aquecimento enquanto aguarda com as palmas das mãos, em seguida as leva ao rosto e as orelhas. o calor. o mesmo cão que é capaz de acabar com a vida na terra, também faz brotar a planta, ou aquece o peito frio do cismador. café passando, fumaça espalhando o seu perfume pela casa, Aristides abre aos poucos a janela e escuta as criações. tanto cacarejo, piado, revoada de pombos e andorinhas, e acima um grito de gavião. o peru gruguleja. uma serração densa vai se desfazendo aos raios do sol e Aristides vê as copas das árvores. enrola o cigarro, lambe a palha, e com um braseiro o acende, pitando. café na caneca esmaltada. fumo de rolo e canivete na mão. senta no banco, e cisma. o que mais me incomoda naqueles olhos? o olhar que ela lançou sobre mim ou mesmo o seu desenho, os cílios, o branco, a forma amendoada, as sobrancelhas? havia uma cor indefinível pra mim, e um sorriso. havia um sorriso? nunca consegui amar sem que o meu coração ficasse fora de mim, sempre controlei bem suas batidas, seu ritmo forte, mas, o que se passou ali? Enquanto a medicina corria desesperadamente apagando as marcas que Milagre provocava nas coisas do mundo, Aristides assistia o filme impassivo. Todas as palavras que usava eram transformadas em ferramentas de todo tipo. O objetivo primeiro era explicar; e em tudo colocava palavras, tanto faladas quanto escritas. Medicina obsecou-se em vencer o maior de todos os inimigos: a morte. No entanto, não percebia que era propriamente a morte quem, naquelas circunstâncias, dava sentido a continuidade da vida. Tanto que por muitos séculos se fez sacrifícios para que a vida não parasse na Terra. Disso dependia toda a organização cosmológica, todo ritmo da universo, cada estrela, cada cometa que retornava, e fazia a contagem do tempo - este, um dos mais odiados, pois, vinha impiedoso e ceifava tudo a seu tempo, quer dizer, ele próprio teria um tempo para realizar suas missões. Certa vez, uma Poesia até descobriu, embutido em seu sentido, uma lâmina e a chamou de "Foice, o tempo". Divulgou isto aos quatro cantos do mundo achando que fazia um bem para a humanidade, pois, esta vivia desesperada com o tempo, então a Poesia colocou-se numa máquina fantástica e se mostrou a todos imediatamente. Seu objetivo parecia ser apenas o de chamar a atenção para a finitude, e daí sugerir as pessoas que vivessem cada dia como se fosse o único.


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