Viagens ao Inconsciente


10/11/2008


Caleidoscopiamando

Ele a olhava todos os dias naquele caleidoscópio. Ficava por várias horas tentando entender como aquilo podia funcionar tão perefeito. Ele via suas partes moles excitadas, como lábios sendo lambidos pela própria língua. Parecia que ela sabia que ele estava observando-a, mais ainda, que havia um desejo de contato. Mas ele não tentou nada por dez anos. Todos os dias pegava o caleidoscópio, sentava-se numa posição confotável e ficava ali olhando-a. As vezes se permitia fazer uma virada de leve, em rotação. Seu coração disparava, diz, parava, não, parava por uns instantes até seu cérebro ficar sem oxigênio suficiente. Ele a olhava com um prazer descomunal. Ela sabia. Atualizava o baton, ajeitava os cabelos com um pente, tirava com o dedo um fio de suor que escorreu no seu colo, e quase mostra a rosa auréola que contorna o bico do seu seio. Pega um espelho na gaveta, olha o baton, esfrega um lábio sobre o outro, acerta com o dedo um canto que havia delineado, toca de leve numa cicatriz que sempre a incomodou - talvez pense que um dia uma coisa vai sair por ali - recolhe seu semblante preocupado, acende um cigarro e diz: então?! Ele guarda o caleidoscópio meio sem graça, pois deu impressão de que ela percebera. Ele precisava ter sua permissão? Talvez isso faria grande diferença, afinal não era um jogo qualquer - quando se mete a mão nas carnes pega intimidade e palavras perdem seu poder depois de gozarem, correndo o risco de não mais funcionar para produzir sentido. Meio a esmo seu olho ficava vagando no espaço que havia entre os dois seios e os dois olhos esverdeados. Ele soubera de uma história antiga em que diziam os seus contadores que seria possível fixar um olho nas palavras que saem da boca e deixar o outro olho vagando pelas palavras que o corpo produz em suas expressões - mas dentro dos limites desse quandrângulo: olhos-seios.

O ritornelo das palavras lhes traziam sentidos novos e excitantes. Ele gostava de ficar olhando os movimentos dos lábios dela, mas o ritornelo falava de dentro do caleidoscópio: Olha os seios! O que poderia haver mais interessante do que as palavras que formavam daqueles movimentos rápidos e quase desconexos dos lábios dela? Olha os seios! Ele resistia, mas não sabia até quando, pois imaginava: se ela tiver demonstrando seus bicos pode ser que eu perca a linha no caleidoscópio e ela perceba que eu vi. Quais seriam as consequências? Talvez melhor fosse ainda ficar vislumbrando as palavras que contornam o desenho da sua boca e se espalham pelo ar esfumaçado. No ambiente havia uma composição que cheirava brancura, mas era da cor do tabaco. Era aconchegante. Imaginou suas partes descobertas por puro diletantismo, sem aquela intensão de seduzir. Deixar simplesmente respirar os lábios envoltos nos poucos pelos quais aqueciam uma silhueta de beleza descomunal para ele. Surdo neste instante, pensou em meter a mão debaixo da mesa quando viu que ela ia se levantar. Puxou pra dentro do pulmão um bufada de fumaça que ela expirou, cheia de um gosto de hálito como se fosse a alma de uma ninfa. Rodou sua cabeça e o caleidoscópio. Sentiu que o tempo passava imperioso. Tinha que tomar uma decisão. Aquilo poderia levá-lo a loucura o a literatura, mas a carne, a carne, era moída numa engrenagem de angústia e prazer.

Escrito por nelson barroso às 17h32
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