Viagens ao Inconsciente


04/12/2007


O sorriso de Clarice

Ele havia acabado de entrar em contato com o sorriso de Clarice - que contara que seu sobrenome não era artístico, mas resultado de perdas de letras de um nome que havia, há milênios, na Ucrânia, onde nascera, e que fora rolando no tempo, limando, como uma pedra levada pelo rio: Lispector. Levou um susto quando percebeu que o nome de sua filha de 15 anos talvez fosse a continuação dessas perdas, que polira então um diamante chamado Lis. Meditou na magia das palavras: a eternidade do diamante e a efemeridade da flor. Pensou na ambiguidade da vida. No seu paradoxo. Breveternidade!?

O sorriso de Clarrice não era visível em sua boca, pois ela tinha a língua presa. Ele estava extamente na língua das palavras, principalmente nos espaços de silêncios - quando dizia estar morta. Pouco lhe importavam as perguntas mal conduzidas pelo entrevistador - ela as transformavam em cenas de beleza contida ao descrever sem rebuscamento o que sentia, ou via. Como se tivesse a debochar da formatação que a vida se apresentava - tomando o entrevistador como representante - Clarice podia dizer que estava triste porque estava cansada, mas que não é uma pessoa triste pois tinha a palavra fazendo o seu ressuscitar, mas que as pessoas quando se tornam adultas ficam triste - "as crianças são felizes". E dizia estar morta "de verdade" naquele momento em que dava a entrevista.

Não havia intervado entre a pergunta do entrevistador e sua resposta. Parecia não haver angústia em Clarice - ela se conectava ao inconsciente do outro e assim podia antecipar a respostas que vinha como em bloco, mas que também poderia se dissolver no ar e deixá-la absorta - ou talvez tranqüila como morta, quem sabe sorrindo por dentro.

Talvez fosse fácil fazer uma leitura que mostrasse Clarice como uma louca, uma dissimulada, alguém que estivesse querendo dar ao seu último depoimento um tom de refinada ironia, contrabalançando sua tristeza por estar doente (talvez já o soubesse de alguma forma), e a oportunidade não poderia ser melhor com aquela bateria de perguntas. Mas, isto seria reduzir a complexidade de um escritora que dizia não ter profissão, mas que escrevia pra não ficar morta. "Ela sabia o que era o desejo" - encarnada em Macabéa, Clarice talvez só soubesse mesmo era chover. Talvez chovesse "em desespero de amor" - em algum lugar onde não cabia o estrelato - ela não enfeitava quando escrevia; "minha escrita é simples" - "eu só não entendi "O ovo e a galinha" (brinca?).

"se atravessara o amor e seu inferno", está agora no centro da cena; e nós continuamos aqui, achando que temos um mundo nas mãos, achando que temos o sorriso de Clarice.

Escrito por nelson barroso às 17h52
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