Viagens ao Inconsciente


27/11/2007


Eu lia Gabriela, sentado de frente pro mar, quando vi você chegando num pé-de-vento. Nacib estava quase encontrando Gabriela nos "complicados caminhos do amor". O pensamento em você. Tentava dissimular. Era até risível - eu só não sabia muito bem porque. O mar marolou. Seu sopro agora era constante nos meus ouvidos. O mormaço resfriado não incomodava meu corpo já aquecido. Estava ali há horas acompanhando os causos contados por Jorge Amado, onde se misturavam a saga de coronéis com os amores clandestinos (muitas vezes nem tanto) dos homens de Ilhéus com as raparigas. O mais picante estava nos casos de traição por parte das esposas de coronéis. Aliás tinha um tal Tonico Bastos que "traçava" quase todas.

Agora seu sopro estava mais brando e o mormaço aquecendo-me como um cochicho seu. Nacib talvez estivesse perto de Gabriela.

E era isso mesmo. Procurava uma cozinheira entre os retirantes que chegavam a Ílhéus até que se deparou com Gabriela. Não a aceitou na hora pois estava completamente suja da viagem, e achou que mentia quando disse, mansa e sorrindo, que já tinha cozinhado pra família rica. No entanto, ao ouvir "Que moço bonito!", saído dos lábios de Gabriela, Nacib parou. Voltou os olhos pra ela "quase num choque", pois nunca, com exceção de sua mãe, ouvira alguém dizer isto.  Viu que Gabriela era forte e perguntou: "Sabe mesmo cozinhar?" Neste momento eu ri com o que meu pensamento flertou: Será que você sabe cozinhar? Seu sopro, agora mais forte, não me deu a resposta: mas fiquei pensando se estaríamos um dia cozinhando juntos alguma coisa. Um nó no coração serviu  de alerta para eu tomar cuidado. Afinal, quase nada sabia de você. Brincava com o pensamento de construir frases que eu não diria pra você: "É muito fácil não se apaixonar por mim". Eu ria sozinho, e tentava decifrar o que você estava dizendo ao meu ouvido. Quando vi Gabriela "rindo com os olhos e a boca, os pés descalços quase deslizando no chão, uma vontade de cantar..." Seus olhos são pequenos, e foram deles de onde eu mais destilei o que você me dizia. Se eu não estva perto ficava tentando vê-los atrás do seu sorriso. De manhã fui me deitar ao seu lado na esperança de roubar um pouquinho de carinho e ver como você é ao acordar. Foi talvez o momento mais intenso: você permitiu que eu carinhasse suas sobrancelhas e visse alguma coisa mais doce e linda despertando do seu olhar, ainda desarmado da vigília. De repente fui chamado por Jorge Amado que falava de uns pedaços difíceis da vida - destes que a gente faz questão de ensurdecer. Falava dos sertanejos que contavam suas histórias das secas e das perdas me fazendo novamente apertar o coração, já há muito tempo preso a cadeado, resistindo abrir-se por medo de sofrer. "Eram sóbrios no narrar" - Isso me fazia pensar que construir narrativas talvez fosse uma forma de não perder a identidade quando se tem passado por tantas perdas e desamor.

Quando um remeiro me falou que já não tinha mais mata pra medir, pois "tudo já tem dono", não tive como não pensar nas mulheres, nas modernas, nas decepcionadas com o amor, agindo como se fossem donas dos homens que comem. Feito Clemente, coloquei-me a espreitar o ar procurando por você. Estive perto de onde mora. Rondei, perscrutando os ruídos para ver se em alguma brisa encontrava seu olhar. Obsecado em querer te ver pensei em jogar areia no ar; quem sabe assim o vento ficaria visível e eu teria sua imagem, como quando ele se manifesta nos  canaviais: ondeando... E me perguntei quando pergunto: Onde anda? Onde ando? E minha cabeça, mal sustenta, ia com o vento.

Escrito por nelson barroso às 15h57
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