Viagens ao Inconsciente


16/11/2007


CENA DE COBIÇA II ou O Atraso no Ônibus

O bico rijo do seio flutuava a um palmo dos meus olhos, falsamente cobertos por uma película de seda marfim, era como um cravo em minha testa - eu pregado somente pela cabeça numa cruz imaginária e os passageiros sabendo de todo meu pecado nem me olhavam, fingidos. O trepidar fazia com que aquele objeto se movimentasse de uma forma mágica, em ritmos quebrados, num primeiro momento cedendo aos solavancos mas logo retomando em ritornelo sua postura erétil. Latejava no compasso do meu pulso o olho aberto no centro da minha cabeça. Os batimentos aumentavam na caixa do meu peito, quando imaginei que ela fosse propositalmente encostá-lo no meu rosto - se eu não tivesse pregado pela testa à cabeceira da poltrona, seria capaz de me virar para apanhá-lo com a boca. Será que os passageiros continuariam fingindo qu enão viam minha agonia? Como se não bastasse tudo isso, fugia de seu corpo um perfume maravilhoso que invadia meu cérebro sem passar pelas narinas, por isso, de vez enquanto, eu inspirava bem devagar para reter todas as moléculas que chegavam marcadas com seu nome pelo fogo da sua pele. Qual seria este nome? Talvez o mesmo nome do perfume. Algo me inquietou... Seria um perfume masculino? Muitas mulheres usam perfume masculino. Acalmei. Dei uma olhada rápida, disfarçando. Era mesmo uma maravilhosa mulher exalando sexo. A pessoa que estava sentada ao meu lado sai. Com um pesar de morte e uma esperança de sorte me acheguei para o lado. Ela permaneceu incólume. Agora a minha visão atingia de soslaio todo o seu corpo. Ninguém sentou no lugar vago ao meu lado. A ignorância do seu olhar só queria saber da velocidade com que os prédio iam nos abandonando. Não expressavam seus lábios vermelhos sem baton a conversa que ela estava tendo calada. Somente o balançar da cabeça indicava vez ou outra a atividade de seu pensamento. Mãos nos cabelos alisados com perfeição. Neste momento, não me contive. Ajustei a câmera-lenta de minha máquina desejante e roubei um percurso da cena enquanto seus dedos saiam de dentro dos cabelos...

Escrito por nelson barroso às 16h06
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13/11/2007


CENA DE COBIÇA

Sexta-feita, noite. Eu, cão-sem-dono, perambulo pela cidade. Olho faces passantes carregando suas alegrias tristes. Algumas me olham. O que vêem? Será que em seus relâmpagos olhares veriam o escuro? Observo o caos com uma calma curiosa.Não há um bar decente no centro desta cidade. Pouco dinheiro nos constrangindo a achar um canto razoável para tomar uma cerveja gelada. A noite é abafada. A diversidade não se mostra bela, mas insiste com suas mil faces. Num bar-restaurante homens em pé. Chopp, prato com tira-gosto acebolado, alguns paletós surrados emborcados no bacão junto à pastas. Casais conversando ao pé-do-ouvido sentados à mesa. Talvez um cheiro de urina mais perto do salão onde ficam os banheiros. Uma senhora lancha no primeiro ambiente do bar, e um rapaz limpa uma outra mesa com um pano encardido. Um outro, comendo com palitos iscas de peito de frango grelhado, num prato, serve o chopp e cuida de vigiar o pagamento da freguesia. Pedimos o chopp. Brindamos a nossa. Sem raciocinar bebi uma talagada aproveitando que não estava bem gelado. Já havíamos rodado um pouco em busca de um lugar, e a sensação de que não era ali. Olhávamos esta vida pela tela das portas desse bar. Ainda muita gente em trânsito - vendedores indo pros seus pontos de ônibus, assim como muitos estudantes, sempre em bandos. Camelôs de dvds, camisas, bolsas, tênis, bijuterias. Nas esquinas, bares improvisados, com mesas lotadas, churrasquinho e sons que fugiam de carros irritados. As pessoas não se importavam, bebiam as palavras que diziam junto com todo o barulho. Meu amigo não conseguiu beber além da metade do primeiro chopp. Eu havia bebido o meu em três goles. Atravessamos a porta e a rua e fomos sentar junto a um largo que há entre o mar e as ruas dos pontos de ônibus - alguém improvisa ali todas as noites um bar, com mesas e cadeiras de plástico azul. Estávamos agora dentro do filme. Do outro lado da tela que olhávamos, em pé, no  bar-restaurante. Enfim, sentados. A cerveja gelada. De dentro do filme agora olhávamos, do outro lado. Passam três rapazes rindo muito - um vestido de vampiro. Duas moças magras param para comprar bijuterias. Uma olha em nossa direção. Cochicha com a colega e ri. Uma senhora sozinha toma uma cerveja na mesa ao lado - sua silhueta me é familiar. Alguma coisa na televisão , em cima de umas caixas. Casais e grupos de familiares em mesas tomam cerveja e conversam baixo. Vez ou outra alguém nos olha. Um vira-lata cheira o trazeiro do cachorro da alinhada senhora que toma lugar junto à televisão. Meu amigo comenta: aquela loira com aquele cara, acho que ela está dando mole...

Escrito por nelson barroso às 14h17
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