Viagens ao Inconsciente


24/04/2007


Ofegante, já não era apenas sua respiração. Era seu bicho que veio pra fora. Sabia que pensava, mas a ambigüidade suspensa só lhe dava uma impressão: hoje ele não voltaria atrás! Lembrou-se de outros momentos tensos. Talvez até muito mais do que agora, mas, havia qualquer coisa...algo difícil de ser colocado em palavras. Uma intuição o invadiu, sem que ele a soubesse de imediato. Sentia...O som das palavras fazia eco no restrito espaço comprimido da casa que sobejava. Atônito. Em vão. Clamou à Deus...Adeus? Isso era o que se anunciou: Você está só! É assim que terá sua liberdade. Livre da imagem dela, agora, você pode ser.

Ela, já havia ido e vindo mais de vinte vezes, da varanda à cozinha. Perturbada. Contava os passos. Sobreposto, seu pensamento imprimia: Não vai ter volta! Adeus...Cinco cigarros..um atrás do outro. Sentiu contrações na alma, pois sabe que ama, mas não podia mais. Tinha que ser o corte. Tentou chingá-lo. Gritou: Filhodaputa! Três vezes. Chorou. Abriu a garrafa de vinho. Estranhou sua imagem no espelho que estava na mesa. Pensou em cheirar a acetona, mas, imadiatamente, riu! "Ruiu!" (escapou-lhe da boca este som). Fez uma rápida associação: Vida-éter-imagem..."Eu tinha falado pra não colar!"...Diz.

Ela não é uma mulher que se divide. Ele sabia disto. Como não viu que ela não suportaria tal acossamento? Que se contentasse com os restos que lhe sobrava, pois, era destes restos que ele já há muito vinha respirando alguma alma. Ele tinha que querer mais? Mais o quê? O quê mais uma mulher pode dar sem se dividir? O quê mais além da própria divisão? Ele deveria pelo menos não reclamar e morrer aos poucos, em silêncio. Talvez ela teria suportado, e, hoje, poderiam, como faziam há anos, falar por horas à fio, ao telefone. Ela até o escutaria contar os filmes sem demonstrar jamais o quanto isto pode ser chato. Mas, só de ouvir sua alegre respiração, ela o escutava quase feliz. Ele a religava à vida. Era um momento em que a solidão diminuia. Mas tudo tinha um ponto certo que ele não percebera.

Hoje a vida continua narrando a história das pessoas que sobre a Terra vivem...num tom um pouco mais vazio.

Escrito por nelson barroso às 15h02
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