DRAMANDO ALGUMA COISA
Vespas cobrem de drama um céu de chumbo
Visíveis seres conturbados contorcem em angústias
Descem aos infernos
Madrigais queimados mostram-se como cadáveres
Escarnecedores se ajuntam para gozar suas sádicas olheiras
Tudo vil
Tudo fúnebre
Em seus passeios vespertinos os vermes deleitam a carne morta, ainda suculenta de sangue
Retorna do Real apavorante vozes imperativas: MATE-SE! MATE-SE!
Num quase orgasmo a vítima ainda tenta um último suspiro
Mas onde está o ar?
Fugiu de si toda coragem que encobria sua fraqueza
Trêmulo, gagueijante, pronuncia grumidos ininteligíveis
Será tudo isso uma ficção?
Um anjo de olhos azuis sobrevoa a cena
Há qualquer coisa em seu semblante que não me convence
Anunciara alguma derradeira profecia?
Apocalipse? Tsuname? 11 de setembro?
Roberto Jeferson? Relógio de ponto? Exame de próstata?
Mulher engordando?
Tento pensar que é um sonho, ou pesadelo..
Me belisco. Apavoro enormemente
Não acordo e sinto dor
Serei um advogado que perdeu o prazo da audiência para defender um homicida inocente?
Serei um sujeito pacato indo buscar o resultado positivo do exame de HIV?
Um fiscal trabalhista em frente a um fazendeiro escravocrata?
Um intoxicado na fila do SUS?
Um paciente internado num hospital psiquiátrico?
Um feto retorcendo-se nas trompas de falópio?
Uma cerveja quente? Um cachorro frio? Um vinho doce? Um cigarro? Uma cigarra no último canto? Um canto em desafino total?
Fumaça no olho? Alvo da bala perdida? Um presidente do Brasil?
Um psicanalista dando conselho? Um pentelho na garganta?
Uma espinha de peixe? Cordas em feixe a espera do algoz?
Ressaca de vodca? Oasis falso? Filho perdido? Mãe puta? Amputação? Joenete no mata barata? Assalto a mão armada? Mulher barbada? Peruca masculina? Camisinha furada? Ejaculação precoce? Dor de dente? Enxurrada? Queimadura? Tortura? Paixão inocente? Visão turva? Demente?
Calo, hipinge, banguela, tumor, furúnculo, mulher falsa indecente?
Rasgo o verbo
"Desço a ripa"
"Como as tripa"
Releio Os Lusíadas
Ouço um hap
Uma ópera
Espero que ela decida
Vejo o tempo a contar seus menos...
Subo de frente a montanha lisa. (PT, saudações)