Viagens ao Inconsciente


27/06/2009


Era sempre a mesma confusão com as palavras. Ela tinha ficado com ele apenas uma vez. Querendo mais, ela foi embora. Aquilo cheirava paixão. Ela teve medo. Por mais tranqüilo e musical que ele fosse, ela o deixou no meio daquele feriado. Ainda tonto de amor ele se conformou. Nutria uma esperança de que talvez houvesse uma regularidade nas visitas que ela o faria. Decorrido mais de um ano, ela voltou. Mas preciso contar como foi a vida durante este longo período. O que é uma história de amor? Essa pergunta parece imiscuir-se em outra: O que quer a mulher? Longos debates foram travados na tentativa de dar sentido a esta pergunta. Teses foram escritas. Instituições foram constituídas. Filmes foram produzidos. Pessoas enlouqueceram. Algumas brigaram chegando “as vias de fato” de se agredirem fisicamente. Lavrou-se boletim de ocorrência. Insônia. Bebedeiras. Uso de drogas. Tentativa de assassinato. Alguém escreveu seis volumes. Outro falou durante vinte anos sobre o tema. Antropólogos saíram às ruas procurando entre as opiniões alguma estrutura que pudesse revelar o sentido. Linguistas se perderam em análises dos jogos das falas produzidas por todos os atores sociais, e nada. Até matemáticos foram chamados para construírem modelos lógicos que pudessem capturar alguma ordem nesse caótico universo que tanto produzia angústia. Músicos. Poetas. Repentistas. Até Naná Vasconcelos foi entrevistado numa das últimas batidas dos corações aflitos. Nada. A coisa sempre retornava em falta – manque, para os franceses. Havia um filósofo especialista em “não-ser”; não convidado. Chegou perto. Nada. A coisa insistia. Teimava. Ardia. Fizeram excursões pela natureza. Jalapão. Floresta Amazônica. Deserto do Saara. Lençóis Maranhenses. Fernando de Noronha. Triângulo das Bermudas. Himalaia. Plutão. Nada. O macrocosmo não sabe nada sobre a mulher! Um sujeito se auto mutilou na esperança de que assim lhe fosse revelado algo sobre a tão protegida castração. Virou um homem sem pênis. Nada mais. Recorreram à genialidade de Mario Quintana. Fuçaram tudo que ele ironicamente escreveu. Só piadas. A falta permanecia incólume. Inabalada. Estudaram a mente dos traficantes, um desespero atroz, já enfrentando problemas políticos e, principalmente, éticos. Chamaram até os frenologistas, os juristas, os juízes. Nada. Talvez ela esteja sendo produzida historicamente! Alguém que parecia ter o juízo no lugar indagou: Recorram a Foucault! Que decepção! Só encontraram hipóteses das condições de possibilidades da emergência da falta no contexto historicamente determinado. Nem a data provável souberam dizer. Pirro! Quem sabe?! Aquele que foi deixado meio de lado pelos catalogadores de filósofos. Aquele só fazia esta “em suspensão” para daí sempre produzir questões sem nunca tomam partido. Nada! Nada que possa fazer parar o fluxo do desejo de saber quem é “esta”: Não seria um extra-terrestre que habitara as distâncias mais longínquas do espaço sideral? Os lugares que estão para além dos nossos sistemas telescópicos, e até teóricos, de medição do universo. Não seria ela a própria encarnação do χαος? A forma de um ente jogado a Terra numa briga de Titãs ocorrida no mundo mitológico? O broto de uma samambaia transfigurado em mulher? O demônio mesmo em pessoa! O tempo vai passar descartando seus instantes. Até quando vamos ter fome de saber o que deseja a mulher? Nietzsche morreu e Deus continua comandando a massa. Ter o falo? Ser o falo? Há escolha? Vivemos no império do significante, mas qual é o sentido do feminino? Uma partícula subatômica? Sabemos que ela já fora objeto de troca entre diversos grupos de povos primitivos. Lenine agrupou várias delas numa música para tentar extrair a essência achando que a sua mulher são todas mulheres. Chico Buarque decantou sua alma cantando-a de todas as maneiras, em toda sua letra e música. Mas quase é a letra feminina? A primeira? A letra do objeto perdido – pequeno “a”. Ou o A do grande Outro? Dizem também que pode ser o φ – significante da falta.

Escrito por nelson barroso às 20h28
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13/06/2009


 

PATO REGURGITANDO SAPO NO DIA DOS NAMORADOS

 

Michel é hábil com as palavras. Velocidade e memória. Criatividade. Transforma clichês em arte. Sadomasoquismo em dinheiro.

Foi avisado que qualquer ruído seria captado por microfones e transformados em descargas elétricas no corpo do artista através de cabos. A cena é medieval. Um sujeito todo de preto, vestindo um roupão largo cheio de bolsos, ligado por cabos elétricos ao tal sistema. Assim que ele adentra ao palco, alguém, tossindo, provoca já o primeiro choque, fazendo com que o artista reaja num movimento súbito. E o bizarro show inicia.

Estamos no século XXI, época em que os pensadores recorrem a Aristóteles para tentar extrair dele algum sentido para o resto que ficou do pós-modernismo. Em cinco minutos de espetáculo Michel já havia pronunciado mais de 800 palavras e levado mais de 250 choques. Como sempre há aqueles mais exaltados, uma mulher que ria de tudo produziu sozinha mais de 100 choques nestes primeiros cinco minutos. Eu fiquei pensando sobre quem estaria sendo sádico realmente. Pois, veja bem, tudo poderia ser um truque muito bem montado: aquela platéia recebendo o regurgitado de um mastigado texto, misto de prosa e poesia, na velocidade de uma narração de futebol feita em rádio. E receberam de tudo pela boca de Michel. Parecia que bebiam seu vômito e ainda achavam graça de piadas preconceituosas, homofóbicas, instigadoras de violência, e o pior, falas manjadas – é como ele dissesse: vai ter sempre um otário que vai rir, um otário que pagou pra engolir vômito. Mas é tudo teatro! Disse Michel num determinado momento da peça, em que propôs a platéia que alguém experimentasse o choque. Ora, o choque elétrico é claro,  mas o choque de se saber masoquista se achando sádico ninguém parece ter sido capaz, nem eu que estou escrevendo isso aqui.

Era dia dos namorados. Eu poderia estar num motel, em casa, num bom restaurante, em qualquer outro lugar que pudesse me fazer sentir um pouco mais aristotélico, menos medieval, mas, aceitei o convite para ir ao teatro encenar na platéia minha própria sapo/pato/logia.

 

Escrito por nelson barroso às 07h57
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07/06/2009


Ser beijado com desejo é o que todo sapo quer. Mas o que aconteceu com as princesas? Elas agora só querem saber de manicures, rpgs, cinemas, curso de espanhol, teatros, livros, feiras de modas, praias....praias meus caros...já viram algum sapo na praia? Estamos acotovelados nos multiplicando nas lagoas, pântanos, brejos, mas elas não se preocupam com o desequilíbrio ambiental, camada de ozônio, efeito estufa. Já me sinto meio estufado, além do que naturalmente sou...só falta nascerem espinhos e viro um baiacu. Enquanto moramos aqui na Barra do Curuzu, elas se mudaram para Barra da Tijuca e Recreio. Nosso cinema é ficar vendo os carros passando na estrada que fica logo ali em frente ao nosso Villar Aglomeradus Sapal, pelos menos também é em 3D, como nos multiplexes em que elas assistem seus filmes cults; isto quando saem de seus castelos, pois, nestes, elas se deslumbram em suas próprias telas liquid crystal display de tamanho 68, ou mais, ligadas ao sistema TV a cabo, ou a internet. Será que elas não têm sentimento? A que ponto chegamos: as princesas saíram de Hollywood e estão invadindo as salas onde Tarkovisky, Antonioni, Kurosawa, Bergman, Fellini, Wim Wenders, Lynch, Polanski, Glauber, fazem seus festins existenciais, dando e tirando sentido na vida. Mas um sapo só vê sentido no beijo da princesa. Eles nasceram com um pequeno defeito de fabricação que os torna muito vulneráveis. É uma coloração que eles adquirem quando estão excitados. As princesas não entendem muito bem como isto funcionam. Elas sabem alguma coisa, mas de alguma forma ficam confusas no lidar com a situação. Elas desejam ser amadas. Como se lhes faltasse alguma coisa, saem caçando sapos. Metem suas botas na lama, percorrem kilômetros de estradas imaginárias, e às vezes literais, em busca da tal completude amorosa, mas, quanta decepção, os sapos sempre exibindo aquela cor. Elas passaram a se reunir para discutir a situação. Foi o princípio do caos. Milhares e milhares delas são vistas nas noites, nos bares, nos restaurantes, nas praias, em todo lugar. Começaram a se aglomerar, como fazemos nós nos pântanos, só que havia alguma diferença. De quê tanto riam, falavam, gesticulavam? Não  parecia ser pelos mesmo motivos....

 

Escrito por nelson barroso às 08h28
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As flores e os botões

Ela tinha uma beleza contida nos cabelos quase sempre presos em rabo de cavalo. Atrás das lentes de seus óculos, arquitetava planos diabólicos para se divertir com o sofrimentos dos homens. Tinha uma preferência pelos mais maduros. Respeitava os idosos. Por estes expressava sinceros afagos. Os mais novinhos não eram afeitos aos seus esquemas, pois ela presava por um ritmo mais lento que nem todos conseguiam acompanhar. Devotadamente pendurada no pescoço, a imagem de sua Santa preferida estava sempre olhando cúmplice todas as ações que ela promovia. Sua estatura facilitava a entrada pelos recônditos caminhos iluminados mansamente por um quarto de lua, que parecia estar sempre vagando no alto de sua cabeça. Nos cumprimentos, nunca dava a orelha pra beijar, mas, sim, a boca, já armada num bico de lábios, muitas vezes assustando os mancebos que tinham que desviar rapidamente o rosto para não resvalar seus lábios no dela - mas acabava sempre causando no outro o sentimento de lhe ter beijado ousadamente. Era já uma espécie de isca. Algo com uma carga ilusionista muito grande. Não havia um homem que não se sentisse persuadido de que estava sendo seduzido de alguma forma. Mas a instantaneidade de sua ação, somada ao contexto formal de sua indumentária, fazia adiar qualquer manifestação que neles significasse uma resposta ao seu afeto. Suas cebeças giravam na tentativa de entender o que estava acontecendo. Se é que realmente estava acontecendo. E sempre estava acontecendo, mas eles não sabiam o quê. Mantinham sua postura simpática enquanto discursavam sobre qualquer assunto. Ela, sempre atrás das lentes, sorriso simples, conduzia inequívoca sua presa. Estudava seus movimentos. Suas palavras. Sua respiração em cada manifestação, em cada assunto, em cada instigação que delicadamente ela promovia. Ela conseguia perceber até o pulsar, olhando discretamente o movimento batente da artéria no pescoço daqueles mais sanguíneos. Certa vez, encontrou um homem que aparentava ter trinta e seis anos. Ela não gostava de cálculos exatos. Supos ser uma vítima interessante. Para o leitor mais exigente talvez o termo não seja o melhor para contextualizar o que realmente causou nela a visão daquele homem; mas outra palavra não me acontece para que eu possa vos brindar com a potência e enigma daquela impressão. Sinto vos deixar por ora um tanto de fora da festa que os olhos dela promoveram nesse encontro. Mas posso dizer que desta vez ela chegou a tremer. A abordagem foi simples: rolava uma festa junina. O homem estava numa fila para comprar um ticket de cachorro quente. Um copo descartável de calcinha de nylon ocupava a sua mão. Deliberadamente ela fura a fila na sua frente. Havia um espaço. Ele olha pra trás. As pessoas estavam distraídamente conversando; não viram. Ele vacila. Enfim lhe toca o ombro. Quando ela se volta para ele sua imagem está refletida no espelho dos seus óculos. Ele a toma como uma surpresa e emudece por uns instantes. Ela ajeita o prendedor nos cabelos. Calado, ele tenta enxergar seus olhos mas o sorriso dela rouba a cena. Pois não? Você furou a fila... Eu sei! Fala balançando a cabeça. Então? O que vai comer? Cachorro quente. Você aceita uma bebida? O que é? Calcinha de nylon. Ah..eu não uso... Nesse instante ele engasga, mandando uma chuvarada da bebida que estava na sua boca, borrando toda a frente da blusa dela. Subtamente lançou sua mão em seus seios no intuito de limpar a sujeira que causara. Meu Deus! Me perdoe...que desastrado sou! Ela lhe segura delicadamente pelos pulsos afastando o seu colo daquelas mãos atrevidas. Tudo bem... Ele dá seu copo pra ela segurar enquanto sai em busca de guardanapos. Sua blusa branca estava com uma nova estampa rosada parecendo flores que acabaram de se abrir deixando transparecer dois botões vermelhos sobressaltados.

Escrito por nelson barroso às 07h55
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23/05/2009


Para CRISTINA

Eu tenho na mão a caneta,

agora já tenho palavras

São doze

A partir de agora

Perderei a conta

Mas vejo que o caminho cresce no caminhar

 

Eu tenho na cabeça ideias,

agora já tenho dúvidas

São algumas

A partir deste instante

Perderei a conta

Mas vejo que as ideias crescem no pensar

 

Eu tenho em algum lugar desejos,

agora já tenho corpo

São um

A partir deste momento

perderei a conta

Mas vejo no espelho sua imagem que cresce ao se aproximar

Escrito por nelson barroso às 23h33
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16/05/2009


SEM PAIXÃO?

A gente combina algumas coisas, e assim tentamos driblar o destino. Quando chegar em casa não me beije - mesmo que esteja com vontade. Fala só um oi, a conversa virá. Mas pode abraçar. Abraçar sempre. A qualquer hora. Mesmo que não esteja com vontade. A vontade virá. E se não vier o abraço termina naturalmente. Se tiver sentindo asco de mim, já estaremos separados há muito tempo. Vamos combinar algo sobre a música. A tecnologia já nos permite o individualismo. Se um dos dois não quiser ouvir, ou não puder, e só colocar o fone no ouvido. Não nos obrigaremos a conversar o tempo todo. Hoje em dia há um psicanalista em cada esquina. Combinemos de não fumar. Se pudermos não beber muito, vai ajudar. Estou rasgado no peito. Alguém invadiu e roubou meu coração. Sem paixão caminho pelas ruas da cidade com um olhar verde e cantarolando "até pensei", do chico buarque. Ah! Nada de orkut, pouco msn, sem sacanagem. Coca cola. Muitos dvds. Poesia até a overdose. Dedilho algo no violão. Você canta, eu acompanho. Capuccino. Um vinho de verdade. Queijo, azeite, orégano, sal. Faz uma lazanha. Quintana. E se eu falar sonhando vai ser engraçado ser acordado com um beijo na boca.

 

Escrito por nelson barroso às 21h52
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04/05/2009


havia no sublime da sua imagem

um ponto frágil

algo de uma alma desperta

um canto desenhado no canto dos lábios

uma ponta sutil de soutien

e ao fundo, o olhar, transpassando todo o espaço

a me atingir

 

meu olho gira no giro do seu

e um rasgo do branco destaca a sombra

deixa em evidência uma beleza

insinua contornos

imprime o olhar

Escrito por nelson barroso às 23h03
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27/04/2009


Aristides pensador

todos os dias o dia explode ao clarear. mesmo que não tenha sol, Aristides se põe de pé e sem espreguiçar caminha até a bica e lava o rosto na congelada água que vem direto da serra - ainda chega com algum cheiro de mato e nos olhos fechados é uma sensação muito prazeirosa. o linho branco enxuga mas não aquece, sempre pensa, Aristides, reiteradamente, todas as manhãs. acende o fogão à lenha com o isqueiro de cobre em formato de bala de fuzil, usando umas palhas secas de milho que fica num embornal, dependurado por um prego de cerca na parede sem reboco. ali perto se vê umas marcas feitas com carvão medindo o tamanho da traíra que ele pegou há um ano. sopra o charduço aceso até que o fogo inicie a queimação da lenha. fica imaginando o milagre do aquecimento enquanto aguarda com as palmas das mãos, em seguida as leva ao rosto e as orelhas. o calor. o mesmo cão que é capaz de acabar com a vida na terra, também faz brotar a planta, ou aquece o peito frio do cismador. café passando, fumaça espalhando o seu perfume pela casa, Aristides abre aos poucos a janela e escuta as criações. tanto cacarejo, piado, revoada de pombos e andorinhas, e acima um grito de gavião. o peru gruguleja. uma serração densa vai se desfazendo aos raios do sol e Aristides vê as copas das árvores. enrola o cigarro, lambe a palha, e com um braseiro o acende, pitando. café na caneca esmaltada. fumo de rolo e canivete na mão. senta no banco, e cisma. o que mais me incomoda naqueles olhos? o olhar que ela lançou sobre mim ou mesmo o seu desenho, os cílios, o branco, a forma amendoada, as sobrancelhas? havia uma cor indefinível pra mim, e um sorriso. havia um sorriso? nunca consegui amar sem que o meu coração ficasse fora de mim, sempre controlei bem suas batidas, seu ritmo forte, mas, o que se passou ali? Enquanto a medicina corria desesperadamente apagando as marcas que Milagre provocava nas coisas do mundo, Aristides assistia o filme impassivo. Todas as palavras que usava eram transformadas em ferramentas de todo tipo. O objetivo primeiro era explicar; e em tudo colocava palavras, tanto faladas quanto escritas. Medicina obsecou-se em vencer o maior de todos os inimigos: a morte. No entanto, não percebia que era propriamente a morte quem, naquelas circunstâncias, dava sentido a continuidade da vida. Tanto que por muitos séculos se fez sacrifícios para que a vida não parasse na Terra. Disso dependia toda a organização cosmológica, todo ritmo da universo, cada estrela, cada cometa que retornava, e fazia a contagem do tempo - este, um dos mais odiados, pois, vinha impiedoso e ceifava tudo a seu tempo, quer dizer, ele próprio teria um tempo para realizar suas missões. Certa vez, uma Poesia até descobriu, embutido em seu sentido, uma lâmina e a chamou de "Foice, o tempo". Divulgou isto aos quatro cantos do mundo achando que fazia um bem para a humanidade, pois, esta vivia desesperada com o tempo, então a Poesia colocou-se numa máquina fantástica e se mostrou a todos imediatamente. Seu objetivo parecia ser apenas o de chamar a atenção para a finitude, e daí sugerir as pessoas que vivessem cada dia como se fosse o único.

Escrito por nelson barroso às 20h41
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24/04/2009


ENTROPIA

Acocorado à beira do caminho, mascando uma cânula de capim, Aristides observa uma fila de formigas cortadeiras enquanto aguarda suas cabras pastarem. Mas que diabos é meu pensamento que fica insistindo em querer saber a finalidade da existência de tanta coisa! Veja só como elas carregam aos pedacinhos a folha deixando este resto picotado como se tiverssem construindo uma coisa nova na imensidão das coisas que já existem. E elas nem sabem nada de tudo isso que está ao seu redor - até porque seus pequenos olhos não alcançam mais do que um palmo da minha mão. Mas posso elevá-la nesta palma a uma altura descomum para o seu pequeno corpo, e talvez ela possa mirar alguma coisa a mais. Que nada! Imediatamente faz da minha mão, do meu  braço, do meu corpo o seu mundo, ou pelo menos se vê num outro mundo que não é aquele da fila em que estava à caminho do enxame. Eu até  poderia imaginar que este tal lugar para onde está levando sua carga seja como a cidade. Eu aqui na roça, cultivo coisas que levo para a cidade, e que servirá aos seus moradores. Também essas formigas produzem coisas e as levam para sua cidade, mas, não sabem disso! Eu posso cismar que elas pensam, cantar um cantiga em sua homenagem que relate seus percalsos na lida, mas, por que apenas continuavam caminhando em seu alvoroçado passo minúsculo e atrapalhado toca-toca de antenas? Certa feita ouvi contar que as cigarras apenas cantam. E que cantam até morrer. Que não trabalham e pouco se importam com isso. Encontram sua comida já prontinha na natureza. Meu pensamento põe sentido na diferença, no movimento, poucas coisas cismo que sejam vivas se estão inertes. Que razão teria eu em ficar observando e colocando razão nas coisas? Talvez elas, em si, não tenham nenhuma razão, pois que pelo menos não a transmitem a mim. Não vejo no olhar do boi que masca a gosma verde do seu próprio bucho nenhum brilho de sentido que eu possa entender como se ele tivesse me entendendo. Ele masca, e só! Mas  não é uma pedra, está vivo. Se algum perigo lhe apresenta , seus olhos se esbugalham. Ele vai reagir. Mas não terá nenhuma magoa, ressentimento, saudade...Ele está quese completo, e, eu, totalmente perdido neste espetáculo do existir. Tão perdido e sozinho que não consigo nem do outro, do meu semelhante, algum alento, pois que este outro, embora me seja amigo, e fundamental companheiro, também está perdido e só em seu universo particular. É um milagre já saber que ele sabe que eu suponho que ele saiba de mim. Mas temos apenas as palavras para trocar, e como elas falham. Daí, alguns chagam até a abrir mão desta ferramenta e se entregam ao sentimento, à emoção, ao amor, na angústia e sina de aquietar-se numa alma forjada à ilusão.

Escrito por nelson barroso às 12h51
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21/04/2009


Desencontro tem, só no encontro

Talvez por isso insisto

Se desencontro em cada encontro

Cada qual deve seu insisto

Eu vejo nisto um encontro

O outro, não sei mas insisto

Pois se não desisto do encontro

É que desencontro nisto.

Escrito por nelson barroso às 19h07
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12/04/2009


Monólogos Distantes, por Camila Silveira Feques

Dos sonhos infinitos

A seu lado nada realizou-se

Não o culpo

Faltou desejo

Faltou beijo

Faltou até mesmo a despedida

Oh, vida querida

Agora desperto

De que valeram os sonhos

Se sonhei sozinha

Se nunca esteve perto

Que insanidade a minha

Desejar você, querer sozinha

E os belos sonetos que me escreveu?

Por que nunca os li?

Por quê?

Meus olhos não são dignos

Meu amor não foi suficiente belo

Resigno-me ao inferno

Amor distante

Pecado

Dois monólogos

Não formam um diálogo

Escrito por nelson barroso às 21h53
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DICAS ORTOGRÁFICAS PARA A ALMA DAS PALAVRAS

vírgula,

algum sentido pra vida

que não seja um ponto

sinais que não sejam finais

alegrias que possam causar sem preço

marcações de desejos

pequenas grafias intensas

um chiste

um flerte roubado de um olhar perdido

olhos dançando sob a pálpebra

uma nota de música deslizando num carinho

reticências fazendo a duração do prazer

invertidos parênteses deixando fora/contido as coisas frias

algumas aspas dando ênfase as palavras nascidas na pele



Voip

Escrito por nelson barroso às 19h36
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08/04/2009


A LÍNGUA DOS ANJOS CIENTÍFICOS

Seguem o cortejo moderno muitos sujeitos detentores do saber. A morte de Deus está sendo investigada pela ciência. Em casos tão importantes já não é a polícia quem cuida de descobrir, ou produzir, como querem muitos, a verdade.

"Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar". Fizeram a análise sintática de todas as frases produzidas pelos mais eminentes doutores de todas as áreas do conhecimento. Um tal de Zaratustra disse coisas que vêm incomodando algumas pessoas, não o suficiente para uma nova onda de caça as bruxas. É que a nova ordem mundial não se abala mais com qualquer coisa: já houve muita explicitação do terror; o comércio traz novidades ao campo de concentração - nas novas hierarquias das micropolíticas haverá sempre espaço para o exercício do saber/poder, sempre, também, alguma "resistência" financiada pelo governo e empresas privadas para a produção do sujeito-cidadão. Alguém subestimou a capacidade de transformação dos seres humanos em sujeitos? Pois eis que o cortejo segue, ao som de uma música divina, a caminho da imortalidade do corpo. Deus, morto, após ter ficado em coma por alguns anos cederá gentilmente seus órgãos para serem transplantados nos anjos científicos, que não querem envelhecer nem morrer, mas desejam o gozo eterno em vida. Não mais o gozo fundado na "falta" - essa maquininha inventada pela psicanálise para nos dis-trair a angústia - mas, o gozo livre da pulsão de morte, o gozo da realização do desejo. O gozo de uma língua perfeita que possa dizer o siginificado como coisa, sem precisar recorrer a qualquer significante, som, ou imagem. O gozo telepático! Algo como o maestro e a sua música.

Escrito por nelson barroso às 11h31
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06/04/2009


   [viagensaoinconsciente.zip.net]
Olá Bianca! Já estivemos construindo sentidos em nosso silêncio de tal forma tão intenso que eu podia perceber como sendo quase coisas. Minha "anarquia" não permitiu que a fruição do desejo continuasse como num rio parado, pois que este flui. Hoje trago a poeira que assentada em meus ombros pesa como um grito de liberdade. Ah se pudéssemos ser teletransportados nestas virtualidades amorosas! Saudades...

Escrito por nelson barroso às 19h02
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02/04/2009


Deixaremos as coisas de crianças, o prazer e a dor, viveremos o nosso trabalho na sua animalidade, pois este nos traz, pelo dinheiro, o conforto. Extrairemos daí o prazer e a dor diante da televisão e do com-puta-dor. Às crianças as coisas inventadas sem sentido, a arte; pensar nos causa, e é perigoso (vide o filme Fahrenheit 451, em que os livros foram banidos). Vamos quantificar o nosso viver; medir, pesar, alinhar, se um vizinho sumiu deve ser por erro de cálculo. Vamos falar de distâncias, de dinheiro, de gols, até da quantidade de prazer pela quantidade de poder. Vamos ser zoopolíticos. Somos modernos, não mais estamos no código do político que dava sentido à vida, agora somos animalisados e fazemos nossa micropolítica. Ficamos sem pai nem mãe após o Nazismo, as dualizações, a binariedade, retirou-se da cena política - estamos órfãos. O micropolítico não é imagem e semelhança do Estado, mas não queremos a sublevação. É melhor a televisão, o teletransporte, a transmigração dos corpos. Nestes, ainda encontramos algo que pulsa com uma intensidade um pouco mais perene - o sexo. Muitos o estão transformando em coisa vendável - para além do que sempre foi na prostituição - agora, o mercado é aberto, está em todo canto e vídeo. Tanto que já nem mais faz sentido o "orgasmonômetro". Temos futebol! E o controle da população é feito com polícia, guerra, religiões, e pequenas catástrofes - tudo comercializável.

Escrito por nelson barroso às 10h41
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