Quando um olhar segura outro olhar
E isso faz festa na alma
Como se com portar
No fundo desse poço
À boiar?
Quando um olhar segura outro olhar
E isso faz festa na alma
Como se com portar
No fundo desse poço
À boiar?
Por onde entras em mim:
Pelas portas que esqueço abertas
Todas as vezes em que não te vejo
Sempre que não te ouço
No que eu não te sei
Nos escapes da tua língua
Se me tinges a pintura tua cor
No que eu descido
No que eu dispenso
Se viajas
Se me esqueces
Vens em minha direção
meus dias não passam....estancam em mim.....feito sargaço numa barreira de açude....e ficam me iludindo com suas danças....até que durmo, e entro na vida.....
Hoje visitei seu comentário no meu blog...algum tempo passou...também li novamente sua história de amor...e tempo passando...comentei seu comentário de uma forma amorosa...esperançosa...tento não ser piegas, mas como é difícil falar de amor quando a dor se impõe entre o ama-dor, tento não analisar, mas como é difícil quando vejo o amor amar, e o amador desejando se profissionalizar...sou isso, essa mistura, identifico-me a sua cura, perco o jeito, dou a mão, minha querida, parece que amar é preciso para além da paciência, primeiro, cortar o fluxo do sangue, engulir a lágrima e o choro, e de pé gritar...talvez fazer um bolo, tomar um café, voltar a Drummond e ler O Aprendiz...
Eu só
não entendo
o tempo que passa
Tão lentamente a cada dia
Se acumula
denso e tanto
No calendario de mim
E eu morrendo
eterno num momento
Vivo
Se te amo
Entretanto
Tão pouco penso
Já que até
te respiro
Eu não sei por quantas vezes aquela situação já tinha ocorrido. Não sei ao certo se me permitiria novamente estar ali. Eu não podia produzir em mim o desejo, nem conseguia me livrar dele quando ele me assaltava.
Seus olhos em mim, tinha boca, pernas, seios e sexo. Mas eles não se cansavam. Nada que vinha da sua boca podia fazer diminuir a intensidade daquele rio. E eu me entregava a isso, cada vez com menos pressa de ir embora. Era como um aprediz de voyer. Pensei que talvez eu me transformasse numa mulher. Evitei fazer conclusões apressadas e totalizantes. Meu estranhamento andava a um nível quase imperscrutável. Era quase mudo o meu outro. E seus olhos de ensurdecer não paravam de me beber. O que agora posso estranhar era que eu ficava saciado. A palavra silêncio calava-me, como se qualquer coisa fosse quebrar a ponte frágil, mas intensa.
O garçon abriu a segunda garrafa de vinho tinto. Deu a ela um tanto para degustar. Aprovado. Muito bom. O garçon desenhou um sorriso e nos serviu. Depois os queijos. Eu me sentia sóbrio, apenas ainda um tanto embevecido pela sua jovialidade; aos quarenta anos ela podia gabar-se de ter uns vinte e poucos. Eu, adolescente, mergulhado. Chovia há três dias, e aquela tarde parecia noite. O restaurante está vazio, mas alguns casais começam a entrar. Todos subiam para o anfiteatro. Vieram jantar. Uma música boa cheirava no ar. Foi quando ela me deu a notícia: Você é minha alma, idêntica. Rindo confusamente pois sabia que havia algo que não me cheirava bem, disse, meio bobo: Eh mesmo?! Sim, por isso que não há sexo. Não podemos transar. Somos o mesmo. Identidade. Não há nenhuma falta. Provavelmente devido ao álcool contido no vinho, ela não percebera minha decpção. E eu até pensei que não a estivesse expondo. Nada mais falei que fosse útil: talvez pudéssemos tentar algumas técnicas; era sério, mas rimos muito. Ela passou a falar do sujeito por quem tem tesão, mas, não está apaixonada. Ele não a sustenta. Ela diz sentir desejo de ter um homem que lhe dê suporte, pois, se sabe um espírito um tanto desfiliado. Mas, ele, também é insuportável. Percebi que sobraria queijo.
Mesmo assim aceitaria novamente o seu convite. Um dia decantaria todo o meu torpor. Enquanto recebesse em meu corpo toda sutileza das suas palavras e o toque da sua mão me fosse sexo, certamente não lhe negaria a companhia. O fosso que me engulia ao deixá-la substituia a falta de importância que a minha vida tinha. Eu não era muito afeito a admirar o sublime. A infinitude me era quase indiferente. O que me consumia era a perda. Era estar sem o toque do seu olhar.
Inexorável, o dia veio. Botou sua cara diante dos meus olhos e foi passando. Usei adjetivos e suportei seu olhar. Quando a noite chegou, acendi uma lâmpada. Olhei para trás. Fiquei vendo aquele dia se distanciando. Quantos mais passariam assim? O céu ainda azulado recebe as negras formas das árvores. Cigarras zoando um canto me levam de volta a infância. A cidade me salva da nostalgia me matando o tempo.
Na capa de um livro de Drummond encontro um tempo mais distanciado ainda. Penso: será que ainda há alguém que nostalgie esse tempo? Talvez não. Agora é a minha vez. Olho detidamente a gravura de um menino que olha em outra direção. Ele ficará ali por toda a eternidade. Sinto desejo de fazê-lo movimentar. Há um triciclo atrás dele. Suas rodas trazeiras são grandes e com aros presos a raios. A roda da frente é menor. O menino usa um boné balofo e parece estar vestindo um vestido com mangas compridas, sapatinhos e meias brancas. Segura um ramo de flor, que está para baixo. Ele parece observar o tempo. É um aprendiz.
e tanto foi que bebi do seu olhar
que afogado solucei
e fiquei assim
te olhando
querendo dizer
dizer o que?
se me basto se te vejo...
QUEM PARODIANDO AMA?! - Eu não posso ver o que eu vejo porque só vejo o você vê. Não posso saber que o sei porque só sei de você. O que vejo e o que sei são as mesmas coisas de você sabe e vê. Também podemos nos substituir, pois somos o mesmo. Tudo o que eu vejo, ouço e vivencio de qualquer jeito que seja é específico de nós. Eu crio um univerno quando não percebo um, então tudo no universo que percebo somos nós, especificamente! BEIJOS....se alguém for copiar, por favor me dê os créditos, mas se quiser parodiar, só com amor....
no sexo andar
namorada de deus
os seresteiros
farfarrilhavam
e nem mais sonhavam
com realidades
eternas que se tornam
na res posta
apanho o amor que ficou na imagem espelhada
na lâmina da poça que colheu a lua
naquele dia ainda viço
de moço e moça nua
retiro com cuidado as digitais
e as guardo em meu lenço úmido do amor que faz os casais o seu vestígio
Talvez porque eu já vivera muitos amores, ela veio a mim assim. Ingênua e feliz. Mal suspeitasse de que as intensões são traiçoeiras. Confiou seu discurso na esperança de encontrar alento? Não creio. O amor sabe da guerra em que está metido. Era somente cumplicidade e alguma parceria com alguém que já se metera com ele. Estava lívida. Uma pele rosada de apetite voraz conflitava com sua beleza. As palavras escorriam dos lábios forçadamente, pois, desejava. O amor brilha nos olhos, sorte daquele que usa óculos e não se deixa confundir. Não era para mim aquelas setas. Mas porque eu as roubava tive meu quinhão. Não é na sutura que o amor se instala, mas na fenda. Parece haver um risco constante na virada dos olhares. Uma procura. O amor sonda. Ela sorria solta, algum medo. Seu colo arfou. Lá estava uma fenda atrativa aos meus olhares. Uma saliência. Contou o tempo só pra saber que foram vários minutos dedicados a sua história de amor. Algum samurai entenderia sua eficácia. Ainda posso recolher de algum instante aquela cena eterna, aquele momento na adolescência em que sabemos que nunca morreremos. O cheiro no ar. O clima. As cores. A sensação de esperança e certeza que estaremos vivos. O amor é vivo. Se se esconde talvez seja porque gosta de brincar.
um homem se lava agachado junto a uma poça d'água na rua calçada, jogando com a mão as porções em seu coxi, enquanto com a outra segura firme uma sacola que parecia conter coisas que catou no lixo.
ao longe avisto duas crianças brincando na pequena calçada diante do portão do depósito que fica embaixo do viaduto - é uma via expressa - uma criança tem em torno de dois anos e a outra quatro. Os ônibus seguem velozes em fila deixando à margem esta cena.
um camelô rippe em pé aguarda não sei o quê encostado ao alambrado do passeio público. seus filhos cobrem o chão com folhas de jornal novo - espalham a notícia de que vão dormir por ali mesmo - estavam bem vestidos e limpos.
uma senhora lê sua bíblia acocorada na calçada de uma rua no centro do rio de janeiro enquanto um homem mija em pé na parede há vinte metros dela - ela vende algumas coisinhas num tabuleiro: pente, rotróz, lixa de unha, pilha, veda rosca, tampão para tanque. Ela tem troco para dez reais.
a carne estava exposta com sua cor vermelha. Havia tiras de gordura branca sob a péle crespa onde se via os pêlos duros mal queimados. algum sangue ainda pingava manchando o chão. tudo estava suspenso preso por um gancho de ferro. um homem afiava um punhal deslisando suavemente seu fio de corte num amolador de mão.
Naquele couro curtido da película do meu pensamento havia desenhos que não se podiam perceber imediatamente os significados. Eram sombreadas manchas nodulentas, como castelos carcomidos pelo tempo e histórias. Ruínas de montes escarpados pelo vento. Rastros e alguns bichos ainda não catalogados pelos persistentes entomologistas. Ruas nuas de barro batido por pés descalços, cuja friagem teria sido trocada pelo suor amassado e pesado dos passantes que por ali percorreram léguas e mais léguas buscando algo para os que ferviam na febre de existir. E construíam cidades imaginárias enquanto a sede era ludibriada por cantos ininterruptos, lamentos, e respiração. Em meio ao rebuscado de falas incompreensíveis sussurrava em seu pensamento idéias como coisas que se acumulam nos quartinhos abandonados das casas. Galope de cavalos, sons de asas, uivo, um rio que repete sua música infinita. Uma enorme boca alaranjada era o céu naquela tarde. Peguei algumas pedras, coloquei nos bolsos. Um grilo me crica alguma coisa. Não entendi. Olhei minhas mãos. As unhas. As dobras. Detive o olhar por uns instantes numa veia que pulsava. Eu via o tempo. Esse tal que passa sem pedir licença, sem cumprimentar, deixando apenas a fumaça de seu cachimbo perfumado a nos fazer indagar sobre o quanto mais dele teremos, e em qual qualidade Uma vertigem utilitarista arrepiou-me causando um breve delírio de achar que eu deveria aproveitar mais de sua benevolência. Construir algo que talvez fique como uma marca de autoridade nas paredes deste devir. Um sinal de que eu existi por aqui. Habitei este planeta. Usufrui das coisas que encontrei e que produzi. Mas o que eu poderia fazer? Tudo parecia tão evanescente. Núbia. Lívida. De tão frágil fulgor. Um reluzir na neblina. Enchi de ar meus pulmões e ensaiei um grito. A música grave das minhas cordas vocais remeteu minha mente para um espaço inimaginável de prazer. Subitamente começo a cantar uma ópera como um aedo. O som propagava em todos os sentidos fazendo com que um brilho a mais assentasse por sobre a pele dos objetos que figuravam ao meu redor. Maravilhado, supus entender, quando o portal abriu para a passagem de um cometa. Estamos numa história fantástica de saber que na vida é possível criar com um simples gesto do desejo os mais espantosos contos.
Era sempre a mesma confusão com as palavras. Ela tinha ficado com ele apenas uma vez. Querendo mais, ela foi embora. Aquilo cheirava paixão. Ela teve medo. Por mais tranqüilo e musical que ele fosse, ela o deixou no meio daquele feriado. Ainda tonto de amor ele se conformou. Nutria uma esperança de que talvez houvesse uma regularidade nas visitas que ela o faria. Decorrido mais de um ano, ela voltou. Mas preciso contar como foi a vida durante este longo período. O que é uma história de amor? Essa pergunta parece imiscuir-se em outra: O que quer a mulher? Longos debates foram travados na tentativa de dar sentido a esta pergunta. Teses foram escritas. Instituições foram constituídas. Filmes foram produzidos. Pessoas enlouqueceram. Algumas brigaram chegando “as vias de fato” de se agredirem fisicamente. Lavrou-se boletim de ocorrência. Insônia. Bebedeiras. Uso de drogas. Tentativa de assassinato. Alguém escreveu seis volumes. Outro falou durante vinte anos sobre o tema. Antropólogos saíram às ruas procurando entre as opiniões alguma estrutura que pudesse revelar o sentido. Linguistas se perderam em análises dos jogos das falas produzidas por todos os atores sociais, e nada. Até matemáticos foram chamados para construírem modelos lógicos que pudessem capturar alguma ordem nesse caótico universo que tanto produzia angústia. Músicos. Poetas. Repentistas. Até Naná Vasconcelos foi entrevistado numa das últimas batidas dos corações aflitos. Nada. A coisa sempre retornava em falta – manque, para os franceses. Havia um filósofo especialista em “não-ser”; não convidado. Chegou perto. Nada. A coisa insistia. Teimava. Ardia. Fizeram excursões pela natureza. Jalapão. Floresta Amazônica. Deserto do Saara. Lençóis Maranhenses. Fernando de Noronha. Triângulo das Bermudas. Himalaia. Plutão. Nada. O macrocosmo não sabe nada sobre a mulher! Um sujeito se auto mutilou na esperança de que assim lhe fosse revelado algo sobre a tão protegida castração. Virou um homem sem pênis. Nada mais. Recorreram à genialidade de Mario Quintana. Fuçaram tudo que ele ironicamente escreveu. Só piadas. A falta permanecia incólume. Inabalada. Estudaram a mente dos traficantes, um desespero atroz, já enfrentando problemas políticos e, principalmente, éticos. Chamaram até os frenologistas, os juristas, os juízes. Nada. Talvez ela esteja sendo produzida historicamente! Alguém que parecia ter o juízo no lugar indagou: Recorram a Foucault! Que decepção! Só encontraram hipóteses das condições de possibilidades da emergência da falta no contexto historicamente determinado. Nem a data provável souberam dizer. Pirro! Quem sabe?! Aquele que foi deixado meio de lado pelos catalogadores de filósofos. Aquele só fazia esta “em suspensão” para daí sempre produzir questões sem nunca tomam partido. Nada! Nada que possa fazer parar o fluxo do desejo de saber quem é “esta”: Não seria um extra-terrestre que habitara as distâncias mais longínquas do espaço sideral? Os lugares que estão para além dos nossos sistemas telescópicos, e até teóricos, de medição do universo. Não seria ela a própria encarnação do χαος? A forma de um ente jogado a Terra numa briga de Titãs ocorrida no mundo mitológico? O broto de uma samambaia transfigurado em mulher? O demônio mesmo em pessoa! O tempo vai passar descartando seus instantes. Até quando vamos ter fome de saber o que deseja a mulher? Nietzsche morreu e Deus continua comandando a massa. Ter o falo? Ser o falo? Há escolha? Vivemos no império do significante, mas qual é o sentido do feminino? Uma partícula subatômica? Sabemos que ela já fora objeto de troca entre diversos grupos de povos primitivos. Lenine agrupou várias delas numa música para tentar extrair a essência achando que a sua mulher são todas mulheres. Chico Buarque decantou sua alma cantando-a de todas as maneiras, em toda sua letra e música. Mas quase é a letra feminina? A primeira? A letra do objeto perdido – pequeno “a”. Ou o A do grande Outro? Dizem também que pode ser o φ – significante da falta.
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